Estamos numa mesa do shopping, esperando a pizza da Pizza Hut ficar pronta. Metade da “clássica”, metade “Brasileira”, ou alguma outra nacionalidade de que não lembro no momento.
Estamos eu, ele e a namorada dele, o outro e a namorada dele, e a outra e o namorado dela. Eu e mais seis pessoas.
A pizza fica pronta, o nosso número aparece no negócio, e ninguém se levanta pra ir buscar. Eu pego e vou lá buscar.
Quando eu volto pra mesa, o outro reclama que estão faltando algumas coisas, e que eu não faço nada direito. Todos ficam quietos, é sinal que concordam com isso. Eu faço parte do “todos”.
Para não matá-lo, eu começo a contar. O Chuck que me ensinou essa.
Conto 2, conto 8. Conto 25. Conto 31. Conto 36 e 54. São os números que vou jogar na mega-sena para tentar ganhar e aliviar as partes menos críticas da minha vida.
Então no dia seguinte, em uma cidade diferente, com auditores e testemunhas, ocorre mais um sorteio. Sorteio que muda a vida de algumas pessoas. Sorteio que mata pessoas. Sorteio que premia pessoas, sabe-se lá por qual mérito. Sorteio que muda, mais do que a vida, a personalidade de alguns.
As bolinhas, não nessa ordem, são sorteadas:
As bolinhas de ouro.
Número 02. Eu tenho.
Número 08. Tenho também.
Número 23. Eu só tenho o 25, aceita?
Número 33. Não, não, não. Não. Diz que foi a 31 que saiu, diz que você falou errado.
Número 37. Eu preferi pintar a casinha do lado, aquela do número 36.
Número 55. Pelo amor de Deus, por que eu fui escolher o 54?
E o dia termina. Fica o susto de antes de conferir número por número. Depois de conferir, fica o gosto do “quase”, que para muitos é “nada a ver, você ficou longe de ganhar” e para poucos é “puta que pariu, muito perto”.
Para mim é simplesmente “quase”. Conheço isso.
E Deus, que não está nada contente comigo, existe. Me pregou um susto.
Eu estava merecendo.
Abril 5, 2009
Mega-sena e Deus
Posted by bhanai (zandro) under As coisas, Blog, eu | Tags: deus, mega-sena, megasena, sorte |[3] Comments
Abril 1, 2009
Deus existe.
Posted by bhanai (zandro) under As coisas, Blog, eu | Tags: chuck palahniuk, deus, martin page |Leave a Comment
Deus existe.
Sim, agora eu acredito. Não, não é um post religioso.
Sabe aquele poema do Dr. Whittier no final do livro Assombro? Então, é mais ou menos isso aí.
Fazer Deus abrir o jogo. Descobrir algo que se quer muito saber, de uma forma pouco convencional. O que podemos fazer se é a única forma existente?
Bom, eu sempre duvidei. Sempre fui agnóstico, desde antes de saber o que essa palavra significa. A gente sempre é alguma coisa antes de entender as coisas.
Imagine você: existe uma pessoa que você ama, que faz a sua vida valer a pena ser vívida, e ao mesmo tempo faz a sua vida não ter nenhum valor. Você pode entregá-la a qualquer um e por qualquer motivo, caso isso produza um sorriso na tal pessoa.
Então imagine como seria essa tal pessoa te abandonando. Pode imaginar o quanto quiser, a dor será muito pior quando isso realmente acontecer.
Então imagine como seria você ficar mais de 1 ano sem falar com essa pessoa. Imagine cada aniversário da sua vó, o quanto cada uma gostava da outra, e o quanto seria bom ela estar lá na hora do parabéns. Imagine cada dia 11 do mês, ou outro dia qualquer que tenha algum significado para você. Algo como todos os dias, para mim. Imagine cada música que você ouve por aí, que foram feitas apenas para vocês dois.
Depois disso tudo, depois de tanto tempo, você decide tentar de novo. Você diz para si mesmo que não pode aceitar isso. Diz que a vida não é ficar longe de quem você ama, percebe cada besteira que fez, cada esforço que parece ter sido em vão, e só quer repetir tudo de novo e para sempre.
É nessa hora que você, sem pensar em nada, desarmado, sem orgulho, envia uma mensagem para o celular dela. O número está na memória, no cérebro. Depois de tantas declarações, tantos fragmentos de poemas, tantos pedidos de desculpas e de tantas promessas, é impossível não se lembrar de oito números. Oito é menor do que “tantos”.
O envio da mensagem falha. Você tenta de novo. E o envio falha de novo.
Parece familiar. Tentar, falhar, tentar, falhar. Desistir, tentar, falhar.
Então você esquece da mensagem, e tenta ligar. É bem melhor ligar. Conversar, de certa forma sentir, e ter certeza que a “mensagem” chegou.
Só não esqueça de que, depois de tentar ligar, vem o passo seguinte: falhar. Uma moça que você não conhece, te faz um favor sem tamanhos. Ela diz: “o número discado não existe.” Será que essa moça é bonita? Quem diabos é ela? Será que ela conseguiria substituir a outra?
Ah, ela nem deve existir. Deve ser alguma espécie de anjo.
Depois de falhar, vem o próximo passo: desistir. Você conversa, tenta se distrair. Come o máximo que consegue. Bebe mais ainda, isso porque você nunca bebe.
O aniversário da sua vó acaba. Ela completou 77 anos. Você com 21 já não aguenta mais, consegue imaginar o que ela sente?
No dia seguinte, sabe o que acontece? A tal pessoa vem falar com você. Sim, isso mesmo, ela vem falar com você.
Como se alguém tivesse contado sobre a sua tentativa no dia anterior.
Como se alguém tivesse contado sobre toda essa dor que está te matando.
Seilá, alguém contou para ela, não é possível.
Talvez tenha sido o anjo do telefone. Talvez você, através de alguma força do pensamento. Ou talvez Deus tenha reservado algum tempinho para te ajudar nessa.
Vocês começam a conversar. O papo vai bem, afinal, a felicidade é tanta que nem cabe dentro de você. E quando você está feliz, você é um cara muito legal. E quando você é um cara legal, as pessoas são legais e te fazem feliz. É um ciclo. Pena que esse ciclo também funciona da maneira inversa, e com muito mais frequência.
Ela pergunta onde você está morando, e você diz o lugar. É um lugar bem longe, e ela comenta: “cada vez mais longe.”
Sim, vocês estão cada vez mais distantes.
Ela diz que está no mesmo lugar.
Sim, mesmo lugar, você ainda gosta dela.
Mas depois vem aquela parte que você não sabia, mas já conhece:
- Estou no mesmo lugar. Mas pensando em ir pra SP.
- SP? Pra quê?
- Eu gosto do interior. Mas a minha faculdade fica em SP e o “cara” passou em um concurso para trabalhar lá, então…
O “cara” é um rapaz que você chegou a conhecer uma vez. Ele é parecido com você, mas um pouco mais estiloso. Ele é bom em um jogo de dança que ela gosta. Ele era só amigo dela.
- Ah, você está namorando com o “cara”?
- Você não sabia?
- Não.
- Então, estou. A gente vai noivar em junho.
- Então é mais vantagem mesmo para você morar em SP.
- Pensei que você soubesse. Mas, depois de tanto tempo, acho que você não liga muito para isso, né?
Depois disso, você faz algo que, como um colega meu diz, se chama “abrir o coração“.
Depois disso, ela fica indiferente, e diz que você continua sendo um “cabeça dura”.
Depois disso você diz que na verdade continua sendo um apaixonado. E acaba achando uma relação entre ser apaixonado e cabeça dura, então aceita o que ela disse.
Mas ela é simplesmente inabalável. Stonehenge. Fresno.
Você inventa uma desculpa qualquer e sai, antes que tudo piore. Antes de descobrir algo pior.
Você vai para a cama e continua a ler o livro que estava lendo há algumas semanas. O nome do livro é “A gente se acostuma com o fim do mundo” e parece que é o momento ideal para lê-lo. Por coincidência você já o estava lendo, parece que já sabia que iria precisar da ajuda dele.
É nessa hora que você se lembra de outro livro. Se lembra do Doutor Whittier e de suas teorias para saber se existe vida após a morte. Para fazer Deus abrir o jogo.
Você pensa que, se isso e tudo na sua vida acontece dessa maneira, extremamente calculado, tem de existir alguém controlando tudo. Manipulando os fatos, as histórias, os sentimentos. Deus existe.
Na sequência, vem a menina da igreja que você frequentava, na época que tentou acreditar na existência de Deus. Ela quer o CD dela de volta. Vocês combinam de se encontrar no dia seguinte, às 18:40h.
Então você chega às 18:39h no terminal e avista a menina. Entrega o CD. Tenta conversar algo. Mas porra, hoje não é um bom dia para conversar. Muito menos com quem você não tem interesse.
Mas vamos tentar, vamos seguir o que os seres humanos fazem.
Papo vai, papo vem, e vocês entram no que aparentemente é o único assunto que a menina domina: Deus. Que Deus é amor, que Deus ama ela do jeito que ela é, que por causa de Deus ela ama todas as pessoas do jeito que elas são.
Eu tento entender o porquê dela precisar tanto ser amada por alguém assim. Tento explicar que ela não precisa de ajuda de ninguém para conseguir amar todas as pessoas do mundo. Na verdade, ela não tem obrigação de amar todas as pessoas do mundo. Ela pode amar algumas, ou até mesmo uma só. A nossa única obrigação aqui no mundo é a de ser sincero com todas as pessoas do mundo. Mas, por favor, não use armas para mostrar a sua sinceridade.
Ela parece não ouvir. Eu não exijo que ela concorde comigo, só quero que ela ouça, pense e se lembre. Ela fala bastante, mas não ouve nada. Mais ou menos como em uma prece.
O ônibus chega, você já tem uma desculpa para ir embora. Enfim só. Agora é só você e as poucas páginas que sobraram do seu livro no caminho para casa.
Chega em casa, e a dor de cabeça some. É impossível sentir algo quando essa casa está vazia e silenciosa desse jeito.
Se lembra do seu blog quase abandonado. Não é culpa sua se você anda tendo alguns dias ruins e está um pouquinho desanimado para postar nele.
Esse desânimo te traz um pouco de inspiração para um texto. Você vai escrevendo o que vem à mente, enquanto ouve a discussão de um casal. Uma discussão inútil e ridícula, quase igual as suas com aquela tal pessoa, há algum tempo atrás. Quase igual, pois a discussão deles acaba de terminar com um beijo.
Quase igual.
O texto acabou. A tristeza deu uma acalmada. Talvez escrever faça bem. Talvez você não queira mais ter discussões inúteis e ridículas.
Talvez a gente se acostume com o fim do mundo.
O texto acabou. Agora ele precisa de um nome.
Que tal “Deus existe” ?
Março 23, 2009
Após o show…
Posted by bhanai (zandro) under As coisas, Blog, Música | Tags: radiohead |Leave a Comment
Radiohead – Videotape
-26-
Because I know today has been the most perfect day I’ve ever seen.
– Radiohead – Videotape
Depois que um show como esse acaba, você acaba pensando/descobrindo/odiando algumas coisas:
- E eu que não gostava de Los Hermanos até hoje… como as coisas mudam;
- Um simples cachorro quente custar 8 reais e uma latinha de refrigerante/cerveja custar 6 reais é um absurdo;
- Uma capa de chuva custar 15 reais é um outro absurdo, no qual eu me recusei a pagar. Vendedores: “Ambition makes you look pretty ugly“;
- Faltou o solo no final de Paranoid Android;
- Faltou No Surprises;
- Sobrou simpatia do Thom, algo meio raro. Não que a falta dela seja um problema para mim;
- Kraftwek é outra coisa ao vivo. É bom demais;
- É claro que você tem milhares de argumentos para explicar a alguém o porquê de tanto esforço para conseguir um bom lugar, e tanto dinheiro gasto, para ver Radiohead tocar. Mas mesmo assim, às vezes as pessoas não entendem. Então basta um cara como o Thom começar a tocar uma música como Fake Plastic Trees só no violão, bem baixinho, que tudo está explicado. Em todas as linguagens do universo;
- Assistir o show da melhor banda de todas é algo estranho. Você fica sem ter o que fazer no dia seguinte…
Se eu lembrar de algo mais, eu volto aqui. Está meio complicado de organizar os pensamentos.
* Postado por: creep.